A IplanRio publicou uma nota oficial sobre a repercussão envolvendo o Rio 3.5 Open 397B, modelo de inteligência artificial disponibilizado pela Prefeitura do Rio de Janeiro no Hugging Face. A manifestação ocorre após dias de debate na comunidade de IA, que passou a questionar a origem técnica do modelo, a forma como ele foi apresentado inicialmente e a atribuição aos projetos usados como base.
Na nota, a empresa municipal afirma que o Rio 3.5 Open recebeu mais atenção do que o esperado e que, junto com essa visibilidade, surgiram análises, críticas e questionamentos. O primeiro ponto destacado pela IplanRio é que o modelo “não é fundacional”, ou seja, não teria sido treinado do zero. Segundo a empresa, ele também nunca teria sido comunicado dessa forma.
Essa explicação é importante porque parte da repercussão inicial tratou o Rio 3.5 Open como uma possível IA de grande porte desenvolvida por uma prefeitura brasileira, com desempenho competitivo diante de modelos internacionais. Depois, análises independentes e apontamentos da comunidade passaram a indicar que o arquivo publicado poderia estar fortemente ligado a modelos abertos já existentes, especialmente o Nex-N2-Pro, da Nex-AGI, e o Qwen3.5-397B-A17B, da Alibaba.
A própria página do modelo no Hugging Face foi atualizada nos últimos dias para reconhecer que o Rio 3.5 Open 397B foi construído a partir de um merge entre o Nex-N2-Pro e o Qwen3.5-397B-A17B, seguido, segundo a descrição do projeto, por uma etapa de “On-Policy Distillation” a partir de um modelo mais forte. O model card também afirma que houve um upload incorreto da versão anterior, em que teria sido enviada a versão base mesclada em vez do modelo final destilado.
Na nova nota, a IplanRio reforça que o projeto foi construído sobre modelos abertos, seguindo abordagens clássicas e alguns experimentos. A empresa também afirma que o desenvolvimento foi realizado pela própria IplanRio, dentro da proposta de criar soluções públicas de inteligência artificial e fortalecer a capacidade técnica da administração municipal.
O posicionamento da IplanRio não elimina todos os questionamentos levantados pela comunidade, mas ajuda a reorganizar o debate. O ponto central deixa de ser apenas se a Prefeitura do Rio poderia ou não usar modelos abertos — algo permitido em muitas licenças open source — e passa a ser a transparência sobre o que foi efetivamente feito: quais modelos foram usados, quais etapas de merge ou pós-treinamento foram aplicadas, quais pesos foram publicados e quais resultados podem ser reproduzidos por terceiros.
Esse tipo de esclarecimento é especialmente importante porque o Rio 3.5 Open faz parte de uma iniciativa pública. Em projetos de IA ligados a governos, a exigência por documentação, rastreabilidade e atribuição de créditos tende a ser maior, já que a tecnologia pode futuramente ser usada em serviços digitais, atendimento ao cidadão, análise de documentos e outras áreas da administração pública.
A IplanRio também adota um tom de continuidade. Na nota, a empresa afirma que o Rio 3.5 Open é “só o começo” e que vai corrigir o que for necessário, seguir desenvolvendo em aberto e compartilhar os aprendizados do processo. Essa frase indica que a companhia pretende tratar a repercussão não apenas como uma crise de comunicação, mas também como parte do amadurecimento do projeto.
Ainda assim, a resposta deixa desafios em aberto. Para que o modelo ganhe mais credibilidade técnica, será importante que a IplanRio publique detalhes adicionais sobre metodologia, scripts, etapas de treinamento ou destilação, critérios de avaliação e diferenças entre a versão mesclada enviada inicialmente e a versão final prometida. Também será necessário explicar de forma mais clara o papel de cada modelo usado como base, incluindo Nex e Qwen.
A polêmica em torno do Rio 3.5 Open mostra como o ecossistema de IA aberta funciona sob forte escrutínio público. Diferente de soluções fechadas, modelos publicados com pesos abertos podem ser analisados, comparados e auditados por pesquisadores, desenvolvedores e empresas. Isso aumenta a pressão por transparência, mas também é justamente um dos benefícios do modelo aberto.
No fim, a iniciativa da Prefeitura do Rio continua relevante por colocar uma empresa pública municipal no debate sobre inteligência artificial aberta. No entanto, o caso também reforça que inovação pública em IA precisa vir acompanhada de comunicação técnica precisa. Usar modelos abertos, adaptar tecnologias existentes e experimentar novas abordagens não é necessariamente um problema. O ponto essencial é deixar claro o que foi criado, o que foi reutilizado, o que foi modificado e quais créditos precisam ser preservados.
